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Edição: 2026

A Teia do Sertanejo

No cerrado, as aranhas tecem suas teias durante a noite: estruturas quase invisíveis à luz do dia que se revelam quando iluminadas. Riobaldo também construía seus caminhos na escuridão, deitado diante do fogo, imaginando estratégias antes de seguir viagem. A instalação transforma essa ideia em uma experiência imersiva de suspensão, onde o visitante desacelera, deita nas redes e percebe que está inserido em uma grande teia viva de luz, imagem e reflexão.

Ao longo do percurso, um jardim de televisores de tubo emerge entre a vegetação como se brotasse do próprio terreno. As telas espalhadas entre árvores e arbustos emitem imagens sincronizadas que parecem contaminar a paisagem, criando um organismo audiovisual que conecta tecnologia e natureza. O caminho torna-se uma transição gradual entre o mundo físico e realidade construída por sinais eletrônicos, conduzindo o visitante até o centro da instalação.

Ao chegar ao espaço central, lasers invadem o ambiente em diferentes alturas, desenhando planos e volumes no ar. Espelhos instalados nas árvores e no solo refletem e multiplicam esses feixes, criando uma geometria tridimensional de profundidade aparentemente infinita. O que inicialmente parece ser um único raio desdobra-se em dezenas, formando uma teia luminosa em constante transformação.

No centro da clareira, redes convidam o público a permanecer. Deitado, o visitante observa as linhas de luz cruzando o espaço enquanto as imagens dos televisores continuam pulsando ao redor, fazendo da floresta um grande organismo eletrônico onde paisagem, memória e tecnologia se entrelaçam.

Artistas: tttttuto Colab com Homem Gaiola

A curva do Nonada

Na curva que abre para a nova clareira, projeções nas árvores criam um “portal” de luz; imagens do cerrado em movimento (pássaros, insetos, chuva, fogo) que reconfiguram o ambiente ao redor.

“Nonada” é a primeira palavra do livro “Grande Sertão: Veredas”, um paradoxo que significa ao mesmo tempo “nada” e “tudo”. A curva do percurso é esse ponto de virada onde o visitante sente que acabou de começar algo novo, mesmo já estando fundo na jornada.

Artista: Carol Santana

 

Escultura sentinela

Escultura vertical totêmica composta por um painel de LED de dupla face, concebida como um marco visual ao longo do percurso. Posicionada entre as duas seções do caminho, a peça estabelece um diálogo contínuo com o visitante, oferecendo diferentes perspectivas conforme o sentido da caminhada.

O conceito artístico explora o encontro entre a cultura do sertão brasileiro, o Movimento Armorial, a linguagem contemporânea do VJ Eletroiman e a pesquisa escultórica de Ferdinand Brenan.

A instalação propõe um sertão que não é apenas território, mas memória, imaginário e movimento. Um sertão construído por símbolos, personagens, paisagens, sons, texturas e gestos que atravessam o tempo e se transformam através das tecnologias contemporâneas.

A referência ao Movimento Armorial, criado a partir da valorização das raízes populares nordestinas e de sua relação com a cultura erudita, aparece como ponto de partida para uma linguagem visual híbrida. Gravuras, xilogravuras, formas geométricas, elementos da cultura popular, animais, paisagens e personagens são desconstruídos e reconstruídos através da projeção, da luz, da animação e do movimento.

A linguagem do VJ Eletroiman amplia essa narrativa através do audiovisual ao vivo, criando uma experiência em constante transformação. Imagens são fragmentadas, sobrepostas, projetadas e recombinadas, estabelecendo um diálogo entre a estética da cultura popular e a linguagem eletrônica contemporânea.

A dimensão escultórica de Ferdinand Brenan introduz o corpo físico no espaço. Suas formas tornam-se superfícies de luz e matéria, recebendo projeções que transformam a escultura em imagem, e a imagem novamente em objeto. A instalação passa, assim, a trabalhar na fronteira entre escultura, pintura, vídeo, luz e performance audiovisual.

O espaço deixa de ser apenas o lugar onde a obra está instalada e passa a fazer parte da própria narrativa. A luz percorre as esculturas, cria sombras, revela detalhes e constrói novas formas. O espectador encontra-se dentro de uma paisagem em transformação, onde o sertão pode aparecer como território, lembrança, sonho ou alucinação.

 

Artista: VJ Eletroiman

João Maciel

https://www.instagram.com/joao108maciel/

Música: Formiga DUB

Artista convidada: Patossa

Raízes de luz

Raízes de luz é uma instalação de iluminação que revela a vida invisível sob as árvores. Através de faixas de LED instaladas no solo, ela recria e revela as estruturas subterrâneas das árvores, transformando a paisagem natural em um mapa luminoso do sistema vivo da floresta. As raízes, normalmente escondidas sob a terra, emergem como linhas de energia que conectam árvores, combustível e ecossistema. A instalação oferece uma experiência poética da rua pública em um território onde a natureza é visível.

No cerrado, as raízes chegam a ser dez vezes maiores que o tamanho das árvores — a maior parte da sua extensão está invisibilizada. Esta instalação no meio do caminho revela o que está oculto: a inteligência invisível da mata, o sistema nervoso do sertão que conecta tudo por baixo.

Artista: VJ Eletroiman, Darklight Studio.

Onde a terra conversa com o céu

Nas bordas do cerrado, o campo se abre para o horizonte — a famosa imensidão do sertão. Este espaço restrito mas com permeabilidade visual para o céu e para o final do parque evoca os momentos de Riobaldo em que a vastidão do campo provoca vertigem e revelação.

Na instalação, lasers apontam para o céu e para o horizonte visível ao fundo do parque. Como se o cerrado enviasse sinais para além de si mesmo. A restrição do espaço físico contrasta propositalmente com a abertura visual: o visitante está num ponto pequeno contemplando o infinito.

Artista: Homen Gaiola, Darklight Studio

O encontro do buriti

O Buriti é a árvore sagrada das veredas do Sertão de Guimarães Rosa. Onde há Buriti, há vida, há água, há esperança! Nesta clareira ampla com grande permeabilidade visual e espaço para sentar, o visitante adentra um ambiente que “respira” junto com a mata numa viagem noturna imersiva por um cenário natural, onde a luz revela uma camada invisível do ecossistema.

Através de multiprojeções em árvores e telas transparentes suspensas, o público descobre a presença de animais luminosos que habitam a floresta. O conceito não procura “iluminar” a paisagem, mas sim activar a sua dimensão poética, tornando visível o que normalmente permanece oculto. A floresta respira com vida visível e invisível; a luz permite-nos perceber a sua dimensão secreta.

Artista: Maggi.