Edição 2026
Quinta EDIÇÃO DO CERRADO MAPPING FESTIVAL 2026

Com o tema “Sertão – Sempre Vivo” a Quinta Edição do Cerrado Mapping Festival propõe narrativas que tratam do universo mítico e literário do Sertão Brasileiro, intrinsecamente, ligado aos ambientes naturais do Cerrado. O conceito e a ocupação do sertão, no Brasil, surgiram a partir do século XVI. Inicialmente, o termo não se referia ao semiárido brasileiro, mas a qualquer região distante do litoral, isolada e desconhecida pelos colonizadores portugueses (o interior inexplorado).
No Século XIX , com a forte seca que assolou o Nordeste entre 1877 e 1879, o sertão adquiriu forte notoriedade no imaginário nacional devido ao êxodo de migrantes e à marginalização social. Este período gerou o fenômeno do cangaço e, mais tarde, o movimento messiânico de Canudos, imortalizados na literatura brasileira (como na obra Os Sertões, de Euclides da Cunha), quando se consolida uma identidade sertaneja.
Historicamente, o sertão tem duas facetas fortes na cultura nacional: a da seca implacável e a do encantamento. Em obras fundamentais como Vidas Secas (Graciliano Ramos) e Os Sertões (Euclides da Cunha), ele é o palco da sobrevivência e da dura realidade. Mas também é um espaço de magia e oralidade. Em Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa), apresenta uma multiplicidade de significados de natureza, tratada por meio de imagens, cores, luzes, cheiros e sons. O espaço é esquadrinhado em quatro dimensões, , ligando céu, água, terra e fogo. O sertão vira um universo infinito, um espaço filosófico onde o bem e o mal travam batalhas colossais, mas também é estado de travessia, profundidade e transformação onde o Sertão não é cenário: É organismo; É linguagem;É tempo vivo. O Sertão não é o fim, é o fluxo.
Esta edição do Cerrado Mapping Festival quer apresentar obras inspiradas nas fabulações sobre o sertão que estão presentes nas identidades brasileiras: uma mistura de mito e misticismo onde a realidade e o maravilhoso se encontram. É uma terra de resistência poética, marcada pelo sol, pela fé e por lendas que alimentam a nossa literatura e o nosso imaginário coletivo.
Ninguém fabula o sertão com tanta vivacidade quanto a poesia popular e o cordel. As histórias são povoadas por cangaceiros com pactos com o diabo, beatos que realizam milagres, e santos que descem à terra. Histórias como as de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, mostram bem esse sincretismo, onde o homem sertanejo, com sua esperteza e fé, consegue negociar até com a morte e o divino.
O Triângulo Mineiro, onde o município de Uberlândia está situado, também já foi chamado de “Sertão da Farinha Podre”. No ano de 1722, o bandeirante paulista Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, descobriu ouro no sertão habitado pelos índios Goyazes, às margens do Rio Vermelho, e fundou Vila Boa (atual Cidade de Goiás). A picada aberta por esta bandeira foi a rota de ligação entre Vila Boa de Goiás e São Paulo, estabelecida por decreto régio em 1730. Esta rota ficou conhecida como Estrada dos Goyazes, Caminho Geral do Sertão ou Caminho do Anhanguera. Alguns anos depois, em 1736, outro caminho foi aberto, ligando Vila Boa de Goiás a São João Del Rei, na região dos garimpos de Minas Gerais, denominado Picada de Goiás. Durante muito tempo, estes dois caminhos foram as principais estradas de escoamento das riquezas minerais goianas para o litoral.
Na rota dos tropeiros que buscavam as vilas goianas, existia um território selvagem, habitado pelos índios Caiapós e Araxás, delimitado pelos rios Grande e Paranaíba, que hoje compreende o Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Os viajantes usavam as sombras das árvores e as margens dos córregos como ponto de descanso e ali faziam suas refeições. Como não havia local apropriado para descarte do lixo, as sobras dos alimentos eram deixadas para trás. Assim, os transeuntes que viajavam por aquele território, frequentemente encontravam as sobras de alimentos em decomposição espalhadas pelo caminho. Existia uma lenda também de que os viajantes escondiam fardos de farinha de milho enterrando-os ou amarrando-os em árvores para consumir no retorno. Como muitos esqueciam os suprimentos, ao voltarem encontravam a farinha apodrecida, e por isso toda aquela região foi apelidada como “Sertão da Farinha Podre”.
O Cerrado Mapping Festival busca apresentar, nesta edição, múltiplas visões sobre o Sertão e suas relações com os ambientes naturais do Cerrado e sua biodiversidade, tão presentes nos hábitos, na culinária, na música, nos modos de ser, dizer e viver da população brasileira.







