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O meu sertão é o seu sertão

VJs CAYETANO e Di Rocha

MEU SERTÃO É O SEU SERTÃO é uma obra de Cinema Vivo em projeção mapeada que transforma a oficina do mestre escultor Poroca do Lino em um território de fabulação, onde mito, memória e imaginação se entrelaçam para confrontar as imagens cristalizadas do sertão brasileiro. A obra de realismo mágico, apresenta um sertão onde o real e o maravilhoso coexistem: lugar de travessias, de resistência poética, de fé, de encantamentos e de permanente reinvenção. Entre animações, texturas de madeira, grafismos, xilogravuras e paisagens em metamorfose, a arquitetura torna-se um organismo vivo que revela a pluralidade de um território que nunca foi único, mas múltiplo, contraditório e inesgotável.

Ao romper com a narrativa linear, a obra propõe uma experiência sensorial em que tradição e contemporaneidade dialogam. Uma Carranca, anárquica e insubordinada, desperta para desafiar o imaginário que reduziu o sertão à seca, à miséria e ao silêncio. Em vez de espantar espíritos, ela passa a expulsar certezas, questionando quem inventou essas narrativas e quais outras histórias permaneceram invisíveis.
Visualmente os elementos evocam uma mistura da iconografia clássica do Sertão misturando com novos fluxos imagéticos de cores, distorções e feitos tramando uma ideia de um mundo distópico sertanejo: Carranca Punk! Ja que o mundo tem os seus Cyber Punks, Diesel Punks etc. Nos teremos o nosso Sertão Punk!

A projeção é acompanhada por uma trilha sonora original e por uma narração performática que conduzem o público por essa travessia sensorial. A voz inicia em tom solene e quase servil, reproduzindo os discursos que, durante séculos, definiram o sertão como lugar da seca, da fome, do fanatismo e da ausência. À medida que a Carranca desperta e se rebela contra essas narrativas, a narração rompe com a repetição, tornando-se cada vez mais insurgente, poética e libertária: “Meu sertão é o seu sertão! Não senhor; o meu sertão é o sertão da verdade! Verdade, verdade…não me venha com essa cumpadre…o sertão do jeito que está é puro delírio!” A trilha sonora nasce do próprio território sertanejo: uma rabeca que arranha o espírito conduz a experiência enquanto camadas de sons do sertão: ventos, madeiras rangendo, cantorias, choros de carpideiras; bichos e paisagens sonoras que emergem e se entrelaçam em uma composição imersiva. Som, palavra e imagem transformam a arquitetura em um espaço de dúvida, invenção e liberdade, onde cada projeção desmonta uma certeza para afirmar que o sertão não é cenário nem destino: é linguagem, organismo, tempo vivo e fluxo contínuo. Não existe um único sertão, mas incontáveis sertões possíveis, reinventados por quem os vive, os conta e os imagina.