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Experimento Fúria

BUNKER

“Experimento Fúria” propõe uma tradução audiovisual para o tema “Raízes profundas: a floresta de cabeça pra baixo”. Nossa obra investiga a fúria não como ódio, mas como a força vital e subterrânea que permite à vida romper, resistir e transmutar. Partimos de duas raízes profundas que nos constituem: a memória ancestral indígena, pulsante no corpo Kaiowá, e a resiliência de uma comunidade urbana de luta, o Pinheirinho dos Palmares (SP). Este trabalho é a história de como essas raízes, aparentemente invisíveis sob o asfalto, sustentam uma floresta de identidades e afetos.

Na fachada do Museu Municipal, a obra irá cartografar este encontro. A arquitetura do prédio será tratada como um corpo-território, uma pele que será tensionada e ressignificada. Visualmente, exploraremos a metáfora da “floresta invertida” através de animações que revelam um subsolo pulsante. Raízes digitais, tecidas com texturas de nossa horta comunitária e grafismos inspirados na iconografia Kaiowá, crescerão pelas paredes, rachando a superfície do concreto e revelando camadas de memórias. A “fúria” se manifestará em momentos de explosão visual, onde a luz satura e as formas se transmutam, simbolizando a germinação e o levante contra o apagamento.

A narrativa visual criará uma fricção constante entre o orgânico e o urbano: imagens da nossa comunidade em São José dos Campos serão sobrepostas e atravessadas por essa vegetação digital resiliente. A projeção não busca apenas ocupar, mas dialogar com o espaço, transformando a fachada em um portal que conecta a luta de um território em São Paulo com a importância vital do Cerrado. A trilha sonora, original, mesclará cantos tradicionais com os ruídos e as vozes da nossa comunidade, criando uma paisagem sonora que reflete essa simbiose entre o ancestral e o contemporâneo (caso seja possível o recurso de áudio).

Nossa obra explora a “floresta de cabeça pra baixo” na própria biografia de Anriih Kaiowá. Sua ancestralidade é, ironicamente, a imagem de uma raiz invertida: pelo sistema, foi-lhe negado o acesso direto às suas origens. Filho de mãe ribeirinha, mas apartado dessa criação e território, sua existência se torna um ato de escavação, uma performance que questiona: o que é uma raiz indígena quando ela é forçada a crescer para dentro, nutrindo-se de fragmentos de memória e da luta por reconhecimento, em vez do contato direto com a terra? Sua identidade é essa raiz profunda, invisível e resiliente, que sustenta um corpo em constante busca e afirmação no tempo e espaço urbano e contemporâneo.