Beirada
Mal Pouco
Beirada é uma instalação de video mapping generativo que transforma escutas ambientais em visualidades projetadas. O projeto nasce de uma prática de escuta ativa dos mares e portos de Fortaleza, onde a verticalização urbana rompe a linha do horizonte, não apenas como fenômeno físico, mas como ruptura simbólica entre corpo e mundo. Para esta edição do festival, a proposta é deslocar essas escutas para matas e florestas, investigando como as forças naturais moldam outros territórios, e como podemos lê-las como gestos visuais e coreográficos.
A instalação transforma ruídos de mar, vento, estruturas e raízes em composição visual. Sons são processados em tempo real através de softwares como TouchDesigner e Blender, gerando campos de partículas, geometrías translúcidas e texturas abstratas. A imagem resultante é viva, pulsante, e dançante como as raízes que pulsam os muros das cidades.
A proposta visual se ancora no conceito de horizonte como linha de fricção: entre céu e terra, entre o visível e o invisível, entre o subterrâneo e a mata. A obra celebra o subsolo como fundamento da vida, escutando o que vem de baixo, de dentro, de antes e parte da sabedoria de Nego Bispo para pensar a escuta como uma forma de reocupar a terra, não como conquista, mas como relação. Nesse sentido, a abstração visual se torna uma estratégia de tradução sensível, semiótica e sinestésica dessas forças.
A construção técnica de A Água Incendeia os Céus e o Fogo Lava as Nuvens é fundamentada em um ecossistema de softwares, linguagens e dispositivos físicos que não operam como meros aparatos, mas como camadas integrantes da poética da obra. Cada ferramenta aqui é extensão sensível de uma necessidade: seja ela de escuta, de modelagem, de conversão simbólica ou de presença sensorial.
Visualmente, a instalação apresenta três camadas na estruturação dos objetos e corpos 3D, as três camadas operam em conjunto como níveis de complexidade material e sensível. A camada óssea define a base estrutural: são os grids, plexos e formas conectivas que organizam o volume e barram a luz, funcionando como barreiras internas da geometria. Sobre essa base, a camada muscular adiciona deformação e dinamismo, ela molda o corpo em tempo real, reagindo a dados sonoros que provocam contrações e dilatações na malha através de instâncias e repetições posicionadas como fragmentos do corpo 3D maior no Blender e através de uma visão topológica dos mapas da região como gerador dessas partículas no Touchdesigner. Por fim, a camada de pele envolve esse volume com texturas translúcidas e refrativas, permitindo que luz e som se inscrevam como imagem viva na superfície. Juntas, essas camadas criam corpos tridimensionais que não apenas ocupam o espaço, mas sentem, filtram e respondem a ele.
Ao transformar a escuta em visualidade, Beirada propõe uma coreografia entre forças invisíveis e corpos presentes. O espaço se transforma em organismo compartilhado, onde o som gera forma, e a forma gera presença. A proposta visual traz a escuta como tecnologia da imagem.